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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Meninos-soldado, que fizeram dos vossos sonhos

No Congo, reacendeu com a brutalidade de sempre a eterna guerra civil que opõe facções tribais e políticas. É incompreensível como o conflito parece fugir do controlo da ONU, apesar do número de capacetes azuis no terreno; parece impossível como a irracionalidade dos senhores da guerra tem tamanha maldade e atinge tamanha proporção. Vale tudo. Vão às escolas e recrutam crianças de nove, dez, onze anos para envolverem na guerra, transformando-os em carregadores de material bélico ou ensinando-os a matar. Roubam-lhes tudo: a inocência, os sonhos, os sentimentos, a vida.
De nada valem as declarações e os tratados internacionais que defendem os direitos das crianças, de nada valem tantos organismos internacionais que devem regular e vigiar a aplicação destes tratados. É tudo letra morta, é tudo impossibilidade. E o cidadão comum que assiste às notícias não pode acreditar em tanta ineficácia. Para que serve uma ONU assim? Para que servem as instituições regionais, africanas, europeias, etc.? Demitam-se, criem espaço e condições para a reforma dessas instituições.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A escola: o ideal e o possível

Não é possível qualquer política educativa sem um ideal de escola que dê consistência e uma visão de conjunto às medidas que vão sendo tomadas; na certeza porém de que esse ideal é isso mesmo, uma referência de excelência, sempre procurada, o que obriga a um questionamento e a uma construção permanentes por parte de todos, desde os mais directamente envolvidos à sociedade em geral.
Acontece que não descortinamos, nos tempos que correm, essa ideia de escola, em vez dela ouvimos falar de coisas avulso, de um modelo educativo, de um modelo de avaliação, de um modelo disto e daquilo, como se as situações e as relações vividas na realidade escolar se pudessem fixar, determinar e controlar por antecipação, através de leis, regras, medidas, programas, etc., pretensamente objectivos, e cuja eficácia só dependeria da boa vontade e do trabalho dos professores e gestores escolares. Puro engano, pois nem a escola é uma empresa, nem os professores e os alunos são peças de uma engrenagem, são pessoas, devem por isso ser participantes activos da sua realidade escolar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Violência na escola, demasiado recorrente

Na semana passada houve notícias de actos de violência em várias escolas, noticiados pela comunicação social: numa escola do 1º ciclo na Ajuda, Lisboa, os pais fecham a escola contra a falta de segurança e de auxiliares de educação, acusando sobretudo meninos de etnia cigana ; numa escola do 2º e 3º ciclos em Alcabideche um aluno esfaqueia um colega que tem de ser hospitalizado; numa outra escola de Mangualde um aluno agride a socos e pontapés uma professora por causa de um telemóvel. Atitudes destas parecem multiplicar-se por muitas outras escolas. As razões, há muitas, umas mais visíveis que outras; as soluções, há poucas e todas muito difíceis. O problema tenderá a agravar-se, porque as tensões em ambiente escolar se têm vindo a degradar.
Na verdade não são os "Magalhães", os quadros electrónicos e toda a tecnologia, que se crê necessária, que constroem relações humanas - a base da escola e da educação - é a proximidade, a comunicação, o compromisso, o cada um ser capaz de se sentir responsável pelo outro, sem esperar nada em troca. Cada vez nos afastamos mais, qualquer dia, vamos dar-nos conta que nas escolas a desumanidade tomou o primeiro lugar, é o salve-se quem puder e a qualquer preço.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A avó negra de Obama

Não sei nada de protocolos, nem do que é "politicamente correcto", mas gostava que Obama fosse ao Quénia em visita oficial e tirasse um dia para visitar a avó. Fizesse uma visita familiar, para olhar a sua terra, a sua casa, rezar aos seus mortos (uma oração cristã ou muçulmana, tanto faz), intuir o espírito dos seus antepassados e colher ramos de árvore para dançar com a avó aquela dança africana que ela dançou no dia da sua vitória.

Obama ganhou

Obama ganhou, e muitos ganharam com ele. Acreditamos que o mundo todo ganhou, pela importância e pelo simbolismo da sua eleição . Tenho uma crença desmesurada em Obama, aliás, há nele algo que ultrapassa a medida, o formatado, o predefinido, por mais que alguns digam que nele tudo é racionalidade e autocrontolo; não, há nele acontecimento, revelação, profundidade, sentimento, algo que vem do lugar mais recôndito da alma humana.
Obama é ele, mas não é apenas ele. Quando fala na senhora de 106 anos, Ann Nixon Cooper, pertencente à primeira geração de negros depois de abolida a escravatura, e que só votou pela primeira vez aos 66 anos, torna presente uma história, um povo, vidas, muitas vidas. O que se terá passado na cabeça e na alma dos que o escutavam? As lágrimas de muitos, diziam tudo.
Enquanto isto, numa aldeia do Quénia, uma família e uma comunidade dançam com ramos de árvores uma dança africana. Foi bonito. Há dias assim.

domingo, 19 de outubro de 2008

A fome, lá longe e não só

Vi na televisão, há dois dias, quando tanto se fala e tanto se explora a crise, mesmo a um nível que, muitas vezes, não respeita, como é dever da imprensa, a dignidade das pessoas - fazem perguntas, mostram primeiros planos de rostos, mãos, etc. e recantos de miséria que não são necessários para todos percebermos tudo - um jovem pai paquistanês dizer: "não temos nada para comer. Não tenho comida para os meus filhos, o melhor é matar-me a mim e a eles". Demasiado forte. Demasiado brutal. Demasiado tudo. E o mundo assiste, uns manejando estatísticas, números, planos contra a crise, sem nunca fixarem um rosto, imunes às tragédias mesmo que tenham o poder de decidir sobre estas vidas ; outros fazendo o que podem, em associações, por conta própria, etc. , ainda assim são os únicos que fazem a diferença.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O tempo de que não podemos falar

Um documentário sobre "A casa tropical", casas construídas, no pós II Guerra Mundial, em cidades africanas como Brazaville (Congo) ou Niamey (Níger), coloca-nos uma importante interrogação sobre o tempo. Casas que, passados mais de cinquenta anos, já muito degradadas e desfiguradas, foram compradas, desmontadas peça a peça, metidas em contentores e levadas para o 1º mundo para serem transformadas em obra de arte. São agora exibidas em Paris, Roma, Nova Yorque. Discutia-se: são ou não património do Congo e do Níger? Devem voltar a estes países? Têm estes países alguma noção de património, de passado histórico? Alguma noção da importância de preservação do passado? Ao limite, tem noção de passado?
São os próprios a responder. A antiga proprietária da casa de Brazaville acha que ainda bem que a sua "casa" (que um francês lhe comprou e pagou bem, tirando-a da miséria) seja agora obra de arte que todos admiram, está certa de que se tivesse ficado teria sido completamente destruída. Um artista local diz: - os africanos não preservam o passado, não precisam do passado.
Não compreendo. Compreendo que, se alguém vive na mais extrema pobreza, não se interesse por guardar as pedras ou os ferros do edifício histórico, se as precisa para fazer um muro; compreendo que utilize a casa/o monumento para viver, guardar o gado ou o que seja; compreendo que se alguém que vive obcecado com a comida desse dia, não tenha como preocupação preservar marcas da história. Mas estas pessoas hão-de ter alguma noção de passado, porque ninguém escolhe ter ou não memória, temos memória, temos passado, mesmo que não saibamos que vozes o habitam, que imagens, que antepassados ou que deuses eternos o povoam. Não sabemos, mas eles sabem. É o tempo de cada um, subjectivamente vivido e pensado, de que não podemos objectivamente falar. Um tempo que existe sem precisar de qualquer marca visível.